“Não julgueis, para que não sejais julgados”

Por Nonato Souza

“Não julgueis, para que não sejais julgados, porque com o juízo com que julgardes sereis julgados,e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (Mt 7.1,2).

 

Há alguns dias escrevi um pequeno post na minha página no facebook sobre exageros que acontecem em nosso meio, principalmente, em nossos cultos, congressos e outras reuniões. Nos comentários, observei várias vezes a citação do texto de Mateus 7.1, “Não julgueis, para que não sejais julgados” como represália ao que escrevi.

Isso me chamou atenção porque o texto de Mateus 7.1 não nos proíbe emitirmos julgamento segundo a Palavra de Deus sobre manifestações, movimentos, falsos ensinos e outros, que destoam por seus exageros da Palavra de Deus, nossa regra de fé e conduta cristã.

Entendendo que há uma interpretação equivocadamente feita por muitos quanto ao versículo, me veio ao coração trazer uma breve reflexão sobre o versículo acima citado, objetivando mostra que não era esse o entendimento de Jesus quando disse: “Não julgueis, para que não sejais julgados”.

O verbo “julgar” traduz o termo grego krinõ que significa “julgar judicialmente, condenar, censurar”; quando se assume o ofício de juiz. O ensino de Jesus não nos proíbe fazermos julgamentos justos ou julgarmos segundo a reta justiça (Jo 7.24; Gl 1.8,9; 1Jo 4.1), ou que sejamos criterioso nas nossas avaliações.

Jesus também, não está dizendo que fechemos os olhos para os pecados do irmão, dizendo: “eu não tenho nada com isso” (1Co 5.1-5; 1Tm 5.22). “Ele espera que julgamentos de valor sejam feitos, que o certo e o errado sejam identificados e que o digno e o indigno sejam discernidos (ARRINGTON, 2003, p. 59) Aos cristãos é dado o dever de julgar todas as coisas (1Ts 5.21).

No entendimento de WIERSBE (2006, p. 34), “o discernimento zeloso é um elemento da vida cristã”. Para ele o “amor cristão não é cego (Fp 1.9,10), e a pessoa que acredita em tudo o que ouve e aceita todos os que se dizem espirituais sofrerá grande perdas”. Não podemos, portanto, interpretar o texto ao nosso bel prazer, pois, se assim fizermos, estaremos indo contra as Escrituras, o que se tornaria impossível condenar o erro, falsas doutrinas e falsas manifestações tão presentes em nosso meio.

Então, esteja certo que no pensamento de Jesus não estava uma afirmação generalizada contra o pensamento crítico. Se não houver um pensamento crítico quanto à ação dos homens a terra estaria nas mãos dos perversos, as heresias se espalhariam e os malfeitores se multiplicariam por toda parte.

Como cristãos amadurecidos, devemos saber discernir e fazer certos julgamentos, pois, os que a tudo aceita sem fazer um discernimento justo, de acordo com a palavra de Deus, prestam um desserviço ao Reino de Deus. O próprio Jesus fez isso quando falou que se deve expor os falsos mestres (Mt 7.15-23) e Paulo ensinou sobre a disciplina na igreja (1Co 5.1-5), e ainda colocou em ordem a operação dos dons espirituais na igreja de Corinto (1Co 14.26-40). O que não devemos é tomar o lugar de Deus como juízes.

Como assim?

O que Jesus está ensinando no texto bíblico é não ficarmos julgando, censurando e condenando o erro dos outros como juízes, emitindo sentença condenatória, como se perfeitos fôssemos. Quando julgamos o nosso irmão nesses termos usurpamos o lugar de Deus (Rm 14.10-21; Tg 4.11,12).

Censurar não significa avaliar as pessoas com discernimento, mas condená-las severamente. “O crítico que julga os outros objetivando condená-los é um descobridor de erros, num processo negativo e destrutivo para com as outras pessoas, e adora viver a procura de falhas nos outros” (STTOT, 2001, p. 185). Os que assim precedem estão tomando o lugar de Deus, decidindo que tem o direto de julgar a todos, esses também serão chamados a prestar contas a Deus, cujo lugar usurpa.

Portanto, o versículo 1 do capítulo 7 de Mateus, segundo o exposto acima, não nos tira o direito de fazermos julgamentos com base na Palavra de Deus sobre movimentos extravagantes, exageros, falsos ensinos, comportamentos estranhos, falsos mestre e outros que fogem ao principio bíblico, mas observá-los e corrigi-los afim de que os mesmos não prejudiquem o bom andamento da obra, nem encaminhem a igreja por caminhos estranhos à boa doutrina dos apóstolos.

Temos o dever de, ao ver o erro ou falta dos irmãos, corrigi-los com amor, gentileza, mas também com firmeza (Mt 18.15-17), objetivando ganhá-los. “A tradição profética pede discernimento e correção” (ARRINGTON , 2003, p. 60).

Fiquem em paz. O Eterno Deus os abençoe!

 

Referências: 
ARRINGTON. French L. Comentário Bíblico Pentecostal. 1ª ed. CPAD: São Paulo.
WIERSBE. Warren W. Novo Testamento I, Comentário Bíblico Expositivo. 1ª ed. Geográfica Editora: São Paulo.
STTOT. John. A Mensagem do Sermão do Monte. 3ª ed. ABU Editora: São Paulo.

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